Quito
Quito 2026: o que você precisa saber antes de ir
Quito é daquelas cidades que te pegam de surpresa. Você chega achando que vai encontrar uma capital sul-americana qualquer e descobre um lugar que mistura história colonial absurda, vulcões nevados no horizonte e uma cena gastronômica que rivaliza com Lima. Mas tem coisas que ninguém te conta antes de embarcar, e é exatamente isso que vou resolver aqui.
Primeiro: a altitude. Quito fica a 2.850 metros acima do nível do mar. Para quem vem de São Paulo ou do Rio, isso significa que nos dois primeiros dias você vai sentir. Falta de ar ao subir escadas, dor de cabeça leve, cansaço desproporcional ao esforço. Não é soroche pesado como em La Paz, mas é real. Beba muita água, evite álcool nas primeiras 24 horas e não tente fazer trekking no primeiro dia. Chá de coca ajuda, e você encontra em qualquer mercado por menos de um dólar.
Segundo: o idioma. Brasileiros têm uma vantagem enorme no Equador. O espanhol equatoriano é falado devagar, com pronúncia clara, sem o 'sh' argentino ou a velocidade caribenha. Você vai entender muito mais do que imagina. Mas não espere que falem português. Aprenda pelo menos o básico: 'cuanto cuesta', 'donde queda', 'la cuenta por favor'. Os equatorianos são extremamente pacientes com brasileiros tentando se comunicar.
Terceiro: o dólar americano. O Equador usa dólar desde 2000. Isso simplifica muito a vida. Não precisa se preocupar com casas de câmbio locais. Traga dólares em espécie dos Estados Unidos ou saque direto nos caixas eletrônicos. A maioria dos caixas aceita cartões internacionais, mas sempre tenha dinheiro vivo. Muitos restaurantes menores e mercados só aceitam cash. A conversão na época de publicação gira em torno de 1 USD = 5,70-6,00 BRL, então multiplique tudo por seis para ter uma ideia em reais.
Bairros de Quito: onde se hospedar
Quito é uma cidade comprida e estreita, espremida entre montanhas. Isso significa que a escolha do bairro importa muito mais do que em outras capitais. Errar aqui pode significar horas no trânsito ou ficar longe de tudo que importa. Vou detalhar os sete bairros mais relevantes para turistas, com preço médio e perfil de viajante.
La Mariscal
O bairro gringo por excelência. É aqui que fica a famosa Plaza Foch, cheia de bares, restaurantes internacionais e hostels. Se você viaja sozinho, quer vida noturna e facilidade para conhecer outros viajantes, esse é o lugar. Hostels custam entre 8 e 15 dólares a diária em dormitório, hotéis simples entre 25 e 45 dólares. O bairro é seguro de dia, mas exige atenção à noite nas ruas laterais. Tem supermercados, farmácia, casas de câmbio e tudo que você precisa a pé.
Centro Histórico
O Centro Histórico de Quito é Patrimônio da UNESCO desde 1978 e é simplesmente o centro colonial mais bem preservado da América do Sul. Ficar aqui significa acordar entre igrejas do século XVI, praças majestosas e ruas de pedra. Hotéis boutique custam entre 40 e 90 dólares, e existem opções mais simples por 20 a 35 dólares. A desvantagem: o bairro fica vazio à noite e exige cuidado após as 20h. De dia, é magnífico e completamente seguro, com polícia turística em cada esquina.
La Floresta
O bairro hipster de Quito. Cafeterias de especialidade, galerias de arte, restaurantes veganos, livrarias independentes. É onde os jovens equatorianos descolados se encontram. Hostels entre 10 e 18 dólares, Airbnbs entre 30 e 50 dólares. Fica entre La Mariscal e o parque La Carolina, então você tem acesso fácil a ambos. É tranquilo, arborizado e com uma energia criativa que lembra a Vila Madalena de São Paulo.
González Suárez
Bairro residencial de classe média alta com vista espetacular para o vale. Aqui você encontra apartamentos modernos no Airbnb por 35 a 60 dólares a noite, com cozinha completa e vista de tirar o fôlego. É seguro, silencioso e tem bons restaurantes próximos. A desvantagem é que precisa de táxi ou Uber para chegar ao Centro Histórico. Ideal para casais ou quem quer tranquilidade.
Cumbaya
Fica fora da cidade, no vale. É onde os ricos de Quito vivem, com shoppings modernos, restaurantes caros e clima mais quente. Não recomendo para turismo a menos que você tenha carro ou planeje ficar muitos dias. Os preços são mais altos e você fica longe das atrações. Mas se está fazendo home office e quer conforto, um Airbnb aqui por 40 a 70 dólares pode valer.
La Ronda
Uma única rua colonial, na verdade. La Ronda é a rua mais bonita do Centro Histórico, cheia de bares tradicionais, lojas de artesanato e música ao vivo. Existem alguns hostels e pousadas diretamente na rua, por 15 a 30 dólares. Ficar aqui é uma experiência em si, mas as opções são limitadas e lotam rápido. Reserve com antecedência.
Quito Norte (Inaquito / Carolina)
A parte moderna da cidade. Shoppings, cadeias de restaurantes, escritórios. Não tem charme turístico, mas é extremamente prático. O parque La Carolina é ótimo para corridas matinais. Hotéis de rede entre 50 e 100 dólares, Airbnbs entre 25 e 45. Use como base se você quer estrutura moderna e não se importa de pegar Uber até o Centro Histórico, o que leva uns 20 a 30 minutos dependendo do trânsito.
Minha recomendação para brasileiros com orçamento limitado: La Mariscal para mochileiros, La Floresta para quem quer algo com mais personalidade, Centro Histórico para quem prioriza a experiência cultural acima de tudo.
Melhor época para visitar Quito
Quito fica praticamente em cima da linha do Equador, o que significa que as estações do ano como conhecemos no Brasil não existem aqui. A cidade tem basicamente duas estações: seca e chuvosa. E entender isso muda completamente a experiência da viagem.
Estação seca (junho a setembro): É a melhor época para visitar. Céus azuis, sol forte durante o dia (use protetor solar, a radiação UV na altitude é brutal), noites frias entre 8 e 12 graus. Temperaturas diurnas ficam entre 18 e 22 graus. É alta temporada, então preços de hospedagem sobem um pouco, mas nada absurdo. Os vulcões ficam visíveis praticamente todos os dias, o que muda a paisagem da cidade inteira.
Estação chuvosa (outubro a maio): Chove quase todo dia, geralmente à tarde. As manhãs costumam ser ensolaradas. A estratégia é simples: faça tudo de manhã, volte pro hotel depois do almoço, espere a chuva passar. Geralmente para em uma ou duas horas. Preços são mais baixos, a cidade menos lotada e a vegetação fica ainda mais verde. Se você não se importa com chuva, é uma época perfeitamente viável.
Temperatura o ano todo: Quito tem um clima estranho para brasileiros. A temperatura média é de 15 graus Celsius. Parece frio, mas o sol forte faz parecer mais quente de dia. O truque é vestir camadas. Uma camiseta, um moletom ou fleece, e uma jaqueta leve impermeável. De noite a temperatura cai para 8 a 10 graus. Se você vem do Nordeste brasileiro, vai achar frio. Se vem do Sul, vai achar ameno.
Dica específica para brasileiros: Feriados equatorianos como Semana Santa, Fiestas de Quito (primeira semana de dezembro) e Carnaval significam hotéis lotados e preços altos. O Carnaval equatoriano envolve água - as pessoas jogam água e espuma umas nas outras na rua. Se você está com equipamento fotográfico, cuidado. Já as Fiestas de Quito são uma experiência incrível com touradas, shows gratuitos e a cidade inteira em festa.
Quando evitar: Não existe época realmente ruim. Mas fevereiro e março são os meses mais chuvosos, com chuvas mais fortes e prolongadas. Se você tem poucos dias, prefira junho a agosto para garantir fotos bonitas e dias completos de passeio.
Roteiro em Quito: de 3 a 7 dias
Quito merece mais tempo do que a maioria das pessoas dá. Muitos viajantes usam a cidade só como ponto de conexão para Galápagos e perdem uma das capitais mais fascinantes do continente. Montei roteiros de 3, 5 e 7 dias, todos testados e com horários reais.
Dia 1: Centro Histórico completo
Comece cedo, às 8h30, na Plaza Grande. É o coração político e histórico de Quito, cercada pelo Palácio de Carondelet, a Catedral Metropolitana e o Palácio Arcebispal. Passe uns 30 minutos absorvendo a praça, observe os aposentados jogando xadrez e os engraxates trabalhando como fazem há décadas.
Às 9h15, caminhe até a Igreja da Companhia de Jesus. Prepare-se: o interior é coberto por sete toneladas de ouro. Não é exagero. É considerada uma das igrejas barrocas mais impressionantes do mundo, e com razão. A entrada custa 5 dólares e vale cada centavo. Passe pelo menos 30 minutos lá dentro.
Às 10h15, siga a pé até a Basílica del Voto Nacional. A caminhada leva uns 15 minutos subindo. A basílica é gótica, imensa, e tem uma particularidade: você pode subir até o topo das torres. A subida inclui escadas estreitas e uma passarela sobre a nave central que não é para quem tem vertigem. A vista de lá de cima é espetacular. Entrada: 2 dólares. Reserve uma hora.
Almoço às 12h na rua La Ronda. Experimente um almuerzo executivo em qualquer restaurante local: sopa, prato principal, suco e sobremesa por 3 a 4 dólares. Sim, esse preço é real.
À tarde, caminhe pelo bairro de San Marcos, visite o Museu da Cidade (entrada gratuita em certos dias) e termine o dia no mirante do Panecillo, que oferece vista de 360 graus da cidade. Uber até lá custa 2 a 3 dólares. Suba antes das 16h para evitar neblina.
Dia 2: TeleferiQo e natureza
Chegue ao TeleferiQo às 9h, antes das filas. O teleférico sobe até 4.050 metros no vulcão Pichincha. O ingresso custa 8,50 dólares. Lá em cima, você pode fazer trilhas de diferentes níveis. A mais fácil leva até um mirante com vista para o vale inteiro de Quito e, em dias claros, para os vulcões Cotopaxi, Cayambe e Antisana. Use roupas quentes, venta muito lá em cima e a temperatura pode chegar a 3 graus mesmo em dias ensolarados. Se sentir falta de ar, descer imediatamente. Não force. Leve água e um lanche.
Volte para a cidade por volta das 13h. Almoço no mercado de Inaquito (Mercado de la Carolina): ceviches de camarão por 4 a 6 dólares, hornado por 3 dólares. O mercado é limpo, seguro e frequentado por locais.
À tarde, explore La Floresta a pé. Visite a cafeteria Café de la Vaca para um flat white excelente (2,50 dólares), caminhe pelas galerias de arte da rua Guipuzcoa e termine o dia no parque La Carolina, que é o Ibirapuera de Quito. Corrida, patins, pedalinhos no lago.
Dia 3: Mitad del Mundo e arredores
Reserve a manhã inteira para visitar a Mitad del Mundo. O monumento fica a 25 km ao norte de Quito. Uber custa entre 10 e 14 dólares, ou você pode pegar o ônibus Metrobus até Ofélia e de lá um alimentador até o monumento por menos de um dólar total. O complexo principal custa 5 dólares. A foto clichê com um pé em cada hemisfério é obrigatória.
Mas a verdadeira atração é o Museo Intinan, 200 metros ao norte do monumento oficial. Custa 4 dólares e é onde ficam as demonstrações interativas: ovo equilibrado no prego, água girando em direções opostas nos dois hemisférios, e outras experiências que misturam ciência real com um pouco de show. É divertido independentemente da validade científica.
Volte para a cidade no começo da tarde. Se ainda tiver energia, visite a Capilla del Hombre, museu dedicado a Oswaldo Guayasamin, o maior artista equatoriano. Entrada 8 dólares. As obras são poderosas e o edifício em si é impressionante, com vista para o vale. Fecha às segundas.
Se você tem 3 dias, para aqui. Você viu o essencial.
Dia 4: Mercados e gastronomia
Manhã no Mercado Central de Quito, inaugurado em 1950. É aqui que os quitenhos de verdade compram frutas, carnes e flores. Experimente sucos de frutas que você nunca viu: naranjilla, tomate de arbol, guanábana. Um suco grande custa 0,50 a 1 dólar. Almoço com hornado completo por 3 dólares. O mercado é seguro, mas guarde o celular no bolso.
À tarde, faça um tour de chocolate. O Equador é o maior produtor de cacau fino de aroma do mundo. O Republica del Cação e o Pacari têm lojas e workshops no Centro Histórico e em La Mariscal. Um workshop de 2 horas custa entre 25 e 40 dólares e inclui degustação. O chocolate equatoriano é tão bom quanto o belga, e muitos chocolatiers brasileiros já importam cacau daqui.
Dia 5: Vulcão Cotopaxi (bate-volta)
O Cotopaxi é um dos vulcões ativos mais altos do mundo, a 5.897 metros. Um tour de um dia saindo de Quito custa entre 50 e 80 dólares com transporte, guia e almoço. O tour leva você até o estacionamento a 4.500 metros, de onde você caminha até o refúgio a 4.864 metros. Essa caminhada de 45 minutos é brutal na altitude. Vá devagar, muito devagar. Se você se aclimatou bem nos dias anteriores, consegue. Não é necessário experiência em montanhismo para ir até o refúgio. A paisagem é de outro planeta: páramo andino, lagoas glaciais e o cone nevado do Cotopaxi dominando tudo.
Você volta para Quito no fim da tarde, destruído mas feliz. Jante algo leve e durma cedo.
Dia 6: Otavalo e cultura indígena
Otavalo fica a 2 horas ao norte de Quito. O mercado indígena de Otavalo é o maior da América do Sul e funciona todos os dias, mas sábado é o dia principal. Têxteis, joias de prata, chapéus Panamá (que na verdade são equatorianos), redes, instrumentos musicais. Os preços são baixos e pechinchar é parte da cultura. Um poncho de alpaca de qualidade custa entre 15 e 30 dólares. Tour organizado custa 40 a 60 dólares, mas você pode ir de ônibus por 2,50 dólares cada trecho no terminal Carcelen.
No caminho, pare na lagoa de Cuicocha, uma lagoa de cratera vulcânica com água verde-esmeralda. A trilha ao redor leva 4 a 5 horas, mas você pode fazer só um trecho. A vista é impressionante.
Dia 7: Dia livre e compras
Use o último dia para revisitar lugares que você gostou, fazer compras de lembrancinhas e experimentar os restaurantes que ficaram na lista. O Mercado Artesanal de La Mariscal tem de tudo, mas os preços são mais altos que em Otavalo. Para presentes práticos: chocolate Pacari (3 a 5 dólares a barra), café de Loja (5 dólares o pacote de 250g), chapéu Panamá dobrável (20 a 40 dólares). À tarde, volte ao Centro Histórico para um café na varanda do hotel Casa Gangotena na Plaza San Francisco, com vista para uma das praças mais bonitas das Américas. Um café custa 4 dólares, mas a vista não tem preço.
Onde comer em Quito: restaurantes e cafés
A cena gastronômica de Quito explodiu nos últimos anos. A cidade tem desde os almuerzo executivos a 3 dólares até restaurantes que competem com os melhores de Lima e Bogotá. Aqui vão recomendações reais, testadas, com preços atualizados.
Orçamento baixo (3-8 dólares por refeição)
Mercado Central: O lugar mais autêntico para comer em Quito. Almoço completo (sopa + prato + suco) por 2,50 a 3,50 dólares. Procure as barracas com fila de locais - é sinal de qualidade. O hornado (porco assado) daqui é referência.
Almuerzos em qualquer restaurante do Centro Histórico: De segunda a sexta, entre 12h e 14h, quase todo restaurante serve almuerzo executivo: entrada, sopa, prato principal, sobremesa e suco por 3 a 4 dólares. É a refeição com melhor custo-benefício do continente.
Bandido Brewing: Cervejaria artesanal em La Floresta com hambúrguer e cerveja por 7 a 10 dólares. A cerveja é excelente e o ambiente é descontraído, cheio de gringos e locals misturados.
Orçamento médio (10-25 dólares por refeição)
Zazu: Restaurante de cozinha contemporânea equatoriana no bairro González Suárez. Pratos entre 12 e 22 dólares. O ceviche de camarão e a costela de porco confitada são imperdíveis. Reserva recomendada para jantares.
Café Mosaico: No bairro de San Juan, com vista panorâmica para o Centro Histórico. A comida é boa (wraps, saladas, pratos equatorianos), mas você vai pela vista. Pratos entre 8 e 15 dólares. Vá ao pôr do sol.
Mama Clorinda: Comida equatoriana tradicional em ambiente familiar. Locro de papa, seco de chivo, encebollados. Pratos entre 8 e 14 dólares. Porções generosas. Fica em La Mariscal.
Orçamento alto (25+ dólares por refeição)
Nuema: Considerado o melhor restaurante de Quito por vários guias. Menu degustação a partir de 55 dólares com harmonização. Cozinha equatoriana contemporânea com ingredientes andinos que você nunca ouviu falar. Reserva obrigatória com pelo menos três dias de antecedência.
Casa Julian: Cozinha autoral com influências equatorianas e europeias. O menu muda com frequência baseado na disponibilidade de ingredientes locais. Menu degustação entre 45 e 65 dólares. Experiência gastronômica completa.
Cafés especiais
Café de la Vaca (La Floresta): Espresso com leite de fazenda própria. Flat white por 2,50 dólares que bate de frente com qualquer café especial do Brasil.
Dulce Placer (Centro Histórico): Chocolateria com cacau equatoriano. Chocolate quente espesso por 3 dólares, acompanhado de humitas (pamonha equatoriana). Perfeito para o frio da tarde no Centro.
Aganope (La Floresta): Terceira onda de café com grãos de Loja e Zamora-Chinchipe. V60 por 3 dólares. Se você entende de café especial, esse lugar te impressiona.
O que experimentar: gastronomia de Quito
A gastronomia equatoriana é subestimada mundialmente, mas quem prova não esquece. Quito, como capital, concentra o melhor de todas as regiões. Aqui estão os pratos que você precisa experimentar, com descrições honestas.
Locro de papa: Sopa espessa de batata com queijo, abacate e sangue de porco (opcional). É o prato mais icônico de Quito. Cremoso, reconfortante, perfeito para o frio. Custa entre 2 e 5 dólares dependendo do lugar. Você vai querer repetir.
Hornado: Porco inteiro assado lentamente em forno de lenha, servido com llapingachos (tortilhas de batata), mote (milho grande cozido) e salada. É o churrasco equatoriano. Uma porção generosa no mercado custa 3 a 4 dólares. No restaurante, 8 a 12 dólares.
Ceviche de camarão: Diferente do peruano. O equatoriano usa molho de tomate, limão, cebola roxa e camarão cozido (não cru). Servido com chifles (chips de banana-da-terra) ou pipoca. É viciante. No mercado, 4 a 6 dólares. No restaurante, 10 a 15 dólares.
Encebollado: A comida de ressaca do Equador. Sopa de atum com yuca, cebola roxa curtida e chifles. Comida normalmente no café da manhã ou no almoço. Custa 3 a 5 dólares. É pesado, é substancioso, e delicioso.
Llapingachos: Tortilhas de batata recheadas com queijo, fritas na chapa e servidas com ovo frito, salada e molho de amendoim. Um prato simples que, quando bem feito, é perfeição. Encontre no mercado por 2 a 3 dólares.
Cuy assado: Porquinho-da-índia assado inteiro. Sim, é isso mesmo. É uma iguaria andina milenar, não um prato turístico provocativo. A carne é parecida com coelho, com pele crocante. Um cuy inteiro custa entre 15 e 25 dólares e serve duas pessoas. Se você conseguir superar o visual, vale a experiência. Encontre no Mercado de Santa Clara ou em restaurantes especializados.
Empanadas de viento: Empanadas fritas gigantes, leves como ar (por isso 'de viento'), recheadas com queijo. Servidas polvilhadas com açúcar. Custam 0,50 a 1 dólar cada. O contraste salgado-doce funciona surpreendentemente bem. Encontre em qualquer padaria ou barraca de rua.
Fritada: Carne de porco frita em sua própria gordura com mote, llapingachos, banana-da-terra madura frita e salada. É uma bomba calórica gloriosa que custa 4 a 7 dólares no mercado. Perfeita depois de um dia de caminhada.
Colada morada com guaguas de pan: Bebida roxa quente feita de farinha de milho roxo, frutas, canela e cravo. Acompanhada de guaguas de pan, pãezinhos em formato de bebê. Tradicionalmente servida no Dia dos Mortos (2 de novembro), mas você encontra em padarias durante outubro e novembro. Uma experiência única que mistura sabor e cultura.
Bolon de verde: Bola de massa de banana-da-terra verde recheada com queijo ou chicharron (torresmo). É o café da manhã da costa equatoriana que invadiu Quito. Custa 1 a 2 dólares. Pesado, mas perfeito para começar um dia de caminhada.
Segredos de Quito: dicas dos locais
Depois de semanas em Quito, conversando com moradores e outros viajantes de longo prazo, juntei as dicas que fazem a diferença entre uma viagem boa e uma viagem excelente.
A regra do protetor solar: Na altitude de Quito, a radiação UV é até 30% mais forte que ao nível do mar. Você vai queimar mesmo em dias nublados. Use protetor FPS 50, reaplique a cada 2 horas, e use chapéu. Brasileiros acostumados com praia acham que aguentam, e voltam vermelhos como pimentão no primeiro dia.
Uber funciona perfeitamente: É mais barato que no Brasil. Uma corrida de 20 minutos custa 2 a 4 dólares. Não use táxis amarelos à noite sem ser chamados por telefone ou app. Táxis de rua após as 22h são um risco desnecessário. Uber ou InDriver resolvem tudo.
O golpe do 'leite no ombro': Alguém joga uma substância (leite, mostarda, algo pegajoso) em você 'acidentalmente'. Enquanto você para para limpar, outro rouba sua bolsa ou carteira. Se alguém sujar você na rua, não pare. Continue andando e limpe depois em um lugar seguro. Esse golpe existe em toda América do Sul, mas Quito tem relatos frequentes.
Domingos no Centro Histórico: Muitas ruas do Centro Histórico fecham para carros aos domingos, virando um grande passeio público com artistas de rua, barracas de comida e famílias. É o melhor dia para explorar o centro a pé, sem pressa, com os quitenhos curtindo sua própria cidade.
Farmácia como indicador de segurança: Bairros com farmácias Fybeca ou Pharmacys são geralmente seguros. Se você está andando e percebe que as farmácias e lojas de rede desapareceram, você provavelmente está entrando em um bairro menos seguro. Volte.
Negocie no mercado, não na loja: Em mercados artesanais e de rua, pechinchar é esperado e faz parte da cultura. Mas nunca em lojas com preço fixo, restaurantes ou supermercados. Uma boa regra: se não tem etiqueta de preço, pode negociar. Comece oferecendo 60% do preço pedido e chegue a um meio-termo.
Água da torneira: Não beba. Diferente de São Paulo, onde a água da torneira é potável, em Quito a recomendação é beber água filtrada ou engarrafada. Um galão de 6 litros custa 1,50 a 2 dólares no supermercado. Nos restaurantes, peça 'agua sin gás' para garantir que seja engarrafada.
O segredo do canelazo: A bebida quente alcoólica tradicional de Quito, feita com aguardente de cana, suco de naranjilla e canela. Nos bares turísticos custa 3 a 5 dólares. Nos bares locais de La Ronda, 1,50. O truque: peça 'canelazo con Zhumir' (a marca local de aguardente) em vez de 'canelazo' genérico. O sabor é muito melhor.
Para brasileiros especificamente: Equatorianos adoram brasileiros. Futebol é o tema universal que quebra qualquer gelo. Mencione o campeonato equatoriano (Liga de Quito, Barcelona de Guayaquil) e você terá um amigo instantâneo. Evite comparações entre as seleções, mas falar de times de clubes funciona muito bem.
Transporte e conexão em Quito
Chegar a Quito a partir do Brasil é mais fácil e barato do que a maioria imagina. E se locomover dentro da cidade também não é complicado, desde que você saiba como funciona.
Como chegar
Voos diretos de São Paulo (GRU) para Quito (UIO): LATAM opera voos diretos com duração de aproximadamente 6 horas. Preços variam entre 1.500 e 3.000 reais ida e volta, dependendo da antecedência e época. É o voo mais prático para brasileiros.
Via Lima: Muitas vezes mais barato. Voe para Lima (voos a partir de 1.200 reais ida e volta) e de lá para Quito (100 a 200 dólares com LATAM ou Avianca). O total pode sair mais barato que o voo direto, e você pode aproveitar para conhecer Lima.
Via Bogotá: Avianca oferece conexões rápidas por Bogotá. Muitas vezes com preços competitivos, especialmente saindo do Rio de Janeiro.
Aeroporto de Quito (Mariscal Sucre, UIO): Fica em Tababela, a 45 minutos do centro da cidade. É um aeroporto moderno e eficiente. O táxi oficial do aeroporto custa 25 dólares fixos até La Mariscal ou Centro Histórico. Uber funciona e custa 12 a 18 dólares. O ônibus aeroporto (Aeroservicios) custa 8 dólares e para em vários pontos da cidade. É confortável e seguro, mas leva mais tempo no trânsito.
Transporte dentro de Quito
Uber e InDriver: As opções mais práticas para turistas. Uber funciona identicamente ao Brasil. InDriver permite que você ofereça um preço e o motorista aceite ou recuse. Geralmente 10 a 20% mais barato que Uber. Ambos são seguros e confiáveis.
Metrobus e Ecovia: O sistema de BRT de Quito. Funciona como o sistema de corredores de ônibus de Curitiba. Passa por toda a cidade, com estações fechadas. A passagem custa 0,25 dólares (sim, vinte e cinco centavos de dólar). É limpo e eficiente em horários fora do pico. No horário de pico (7h-9h e 17h-19h), é lotado como o metrô de São Paulo.
Metrô de Quito: Inaugurado recentemente, a primeira linha vai de Quitumbe (sul) a El Labrador (norte) passando pelo Centro Histórico. Rápido, moderno e barato. Se a estação for próxima do seu destino, é a melhor opção.
Táxis: Táxis amarelos são abundantes. De dia, são seguros e baratos. Exija que ligue o taxímetro ('ponga el taxímetro, por favor'). Se negar, saia e pegue outro. Corrida média: 2 a 5 dólares dentro da cidade. À noite, apenas táxis chamados por telefone ou app.
Internet e comunicação
Chip local: Compre um chip da Claro ou Movistar no aeroporto ou em qualquer loja de telefonia. Um plano de 30 dias com 10 GB custa entre 10 e 15 dólares. A cobertura 4G é boa em Quito e nas principais rodovias. Necessário apresentar passaporte.
Wi-Fi: A maioria dos hotéis e cafés tem Wi-Fi gratuito. A velocidade é razoável, entre 10 e 30 Mbps na maioria dos lugares. Para trabalho remoto, os cafés de La Floresta são os melhores (velocidades mais altas e tomadas disponíveis).
WhatsApp: Funciona perfeitamente e é o app de comunicação principal no Equador também. Restaurantes recebem reservas por WhatsApp, tours podem ser combinados por mensagem. Muito parecido com o Brasil nesse aspecto.
Voltagem: 110V, tomadas tipo A e B (as mesmas dos Estados Unidos). Se seus aparelhos são bivolt (maioria dos celulares e notebooks), só precisa de um adaptador de tomada. Compre antes de viajar ou no aeroporto por 2 dólares.
Para quem é Quito: conclusão
Quito não é para todo mundo, e tudo bem. Se você quer resort all-inclusive com praia e drink na mão, não é aqui. Mas se você gosta de história que você sente nas pedras, comida que conta a história de um povo, paisagens que parecem impossíveis e preços que fazem seu real render como não rende em nenhum lugar da Europa, Quito é a sua cidade.
Para brasileiros, Quito tem uma vantagem adicional: é perto, é barato de chegar, e culturalmente familiar o suficiente para não causar choque, mas diferente o suficiente para surpreender todos os dias. O espanhol equatoriano é acessível, os preços são honestos, e os equatorianos têm uma gentileza genuína que lembra o interior do Brasil.
Três dias são o mínimo para ter um gosto. Cinco dias dão uma experiência sólida. Sete dias permitem que você realmente desacelere e sinta a cidade. E se você tiver mais tempo, o Equador inteiro é do tamanho do estado de São Paulo, com Amazônia, praia, serra e ilhas vulcânicas a poucas horas de distância.
Vá sem expectativas mirabolantes. Vá com curiosidade e estômago vazio. Quito faz o resto.