Fez
Fez 2026: o que você precisa saber antes de ir
Fez não é Marrakech. E isso é a melhor coisa que posso te dizer. Enquanto Marrakech virou um parque temático para turistas, Fez continua sendo uma cidade real, com gente real, vivendo como se vive há séculos. A Fes el-Bali (Medina Antiga) é a maior zona urbana sem carros do mundo - mais de 9.000 ruelas onde até o GPS desiste. É exatamente aí que mora a magia.
Fez foi a capital intelectual e espiritual do Marrocos por séculos. Aqui nasceu a primeira universidade do mundo, a Mesquita e Universidade Al-Qarawiyyin, fundada em 859 d.C. - sim, antes de Oxford, antes de Bolonha, antes de tudo. A cidade respira história em cada esquina, cada fonte de mosaico, cada porta de cedro entalhada.
Para brasileiros, Fez é acessível via conexão em Lisboa (TAP ou Royal Air Maroc, com voos diretos Lisboa-Fez em cerca de 1h40) ou via Casablanca. De São Paulo, o caminho mais comum é GRU-Lisboa-Fez, com passagens entre R$ 3.500 e R$ 5.500 ida e volta, dependendo da temporada. Portugueses têm ainda mais facilidade: voos low-cost da Ryanair saem do Porto e Lisboa por 30-80 EUR.
O custo de vida em Fez é absurdamente baixo. Um almoço completo sai por 40-60 MAD (R$ 20-30 / 4-6 USD). Um riad charmoso na medina custa 300-600 MAD por noite (R$ 150-300 / 30-60 USD). Você vai gastar menos aqui do que em qualquer capital europeia - e viver experiências infinitamente mais ricas.
Bairros de Fez: onde se hospedar
Fez tem personalidades muito diferentes dependendo de onde você fica. Escolher o bairro certo faz toda a diferença entre uma viagem mágica e uma experiência frustrante. Aqui vai meu guia honesto:
Fes el-Bali (Medina Antiga) - para aventureiros
O coração pulsante da cidade. Ficar aqui significa acordar com o chamado do muezim, tomar café no terraço vendo o sol nascer sobre mil minaretes e se perder (literalmente) a caminho do café da manhã. A maioria dos riads está aqui, com preços entre 250-800 MAD/noite (R$ 125-400 / 25-80 USD). A desvantagem: carregar mala por ruelas estreitas e escadas. Peça ao riad para enviar alguém te encontrar no Bab Bou Jeloud (Portão Azul) - é sério, faça isso. Ideal para quem quer mergulhar de cabeça na experiência marroquina.
Fes el-Jdid (Cidade Nova) - equilíbrio perfeito
Construída no século XIII pelos Merinidas, a 'cidade nova' é mais aberta e fácil de navegar. Aqui ficam o Palácio Real de Fes e os Jardins Jnan Sbil. Os riads são um pouco mais baratos (200-500 MAD/noite) e o acesso à medina antiga é rápido a pé. A Sinagoga Ibn Danan fica neste bairro, no antigo mellah (bairro judaico). Ótima opção para quem quer proximidade sem o caos total.
Ville Nouvelle - para quem prefere conforto moderno
A parte francesa da cidade, construída durante o protetorado. Avenidas largas, cafés com Wi-Fi, hotéis com estacionamento e restaurantes internacionais. Aqui você encontra redes como Íbis e Marriott (500-1200 MAD/noite / R$ 250-600 / 50-120 USD), além de apartamentos no Airbnb. A desvantagem: você perde a atmosfera. Precisa de táxi para ir à medina (15-20 MAD). Recomendo para famílias com crianças pequenas ou quem tem mobilidade reduzida.
Bab Ftouh - autenticidade sem filtro
A zona ao redor da Bab Ftouh é um dos cantos mais autênticos e menos turísticos da medina. Aqui os preços são os mais baixos: riads simples por 150-300 MAD/noite (R$ 75-150 / 15-30 USD). Menos restaurantes voltados para turistas, mais barracas de comida local. É o lado leste da medina, mais tranquilo que o centro. Para mochileiros e viajantes que querem fugir da bolha turística.
Ain Nokbi / Colinas ao Norte - para vistas panorâmicas
Os hotéis nas colinas ao redor de Fez oferecem vistas de tirar o fôlego, especialmente ao pôr do sol. Perto dos Túmulos Merinidas e do Borj Nord (Museu de Armas), você tem a medina inteira aos seus pés. Hotéis boutique aqui custam 400-1000 MAD/noite. A desvantagem: você precisa de táxi para tudo. Ideal para casais em lua de mel ou quem quer aquela foto perfeita do Instagram.
Zona Universitária / Dhar el-Mehraz - orçamento apertado
Perto da universidade, essa área tem opções de hospedagem bem baratas: hostels por 80-150 MAD/noite (R$ 40-75 / 8-15 USD) e pequenos hotéis familiares. Não tem charme, mas tem praticidade. Supermercados, cafés baratos, conexão fácil de ônibus para a medina. Para quem está fazendo mochilão pelo Marrocos e precisa economizar cada dirham.
Melhor época para visitar Fez
Fez tem um clima que pode surpreender - não é o deserto que muita gente imagina. A cidade fica a 400 metros de altitude, no interior, e tem invernos frios de verdade.
Primavera (março a maio): A melhor época, sem dúvida. Temperaturas entre 15-28 graus C, dias longos, jardins floridos. Abril e maio são perfeitos. O Festival de Música Sacra do Mundo acontece geralmente em junho. Preços de hospedagem sobem um pouco, mas nada absurdo.
Verão (junho a agosto): Calor intenso, facilmente passando dos 40 graus C em julho e agosto. A medina vira um forno - as ruelas estreitas retêm o calor. Se vier nessa época, saia cedo (antes das 10h), descanse à tarde no riad e volte a explorar depois das 17h. A vantagem: preços mais baixos e menos turistas. Leve chapéu, protetor solar e uma garrafa de água sempre.
Outono (setembro a novembro): Segunda melhor época. Outubro é excelente - temperaturas amenas (18-26 graus C), pouca chuva, cidade tranquila. Novembro já começa a esfriar e chover. As cores do outono nos Jardins Jnan Sbil são lindas.
Inverno (dezembro a fevereiro): Frio úmido, com mínimas de 3-5 graus C à noite. Os riads tradicionais raramente têm aquecimento central - peça cobertores extras. Chove com frequência. A vantagem: você terá a medina praticamente só pra você. Preços no piso. Se não se importa com frio, é uma experiência muito especial ver Fez sem multidões.
Dica importante: O Ramadã muda de data todo ano (segue o calendário lunar). Em 2026, deve cair entre fevereiro e março. Durante o Ramadã, muitos restaurantes fecham durante o dia, mas o iftar (quebra do jejum ao pôr do sol) é uma experiência incrível. Respeite o jejum dos locais - não coma nem beba na rua durante o dia.
Roteiro por Fez: de 3 a 7 dias
Fez é daquelas cidades que você pode explorar por uma semana inteira sem repetir experiências. Aqui vai um roteiro flexível que funciona tanto pra quem tem 3 dias quanto pra quem tem uma semana.
Dia 1: A medina sem pressa
09:00 - Comece pelo Bab Bou Jeloud (Portão Azul), a entrada mais icônica da medina. Tire suas fotos (os azulejos azuis por fora, verdes por dentro são lindos), depois entre e deixe-se levar. Logo na entrada, à sua direita, está a Madrasa Bou Inania - entre e admire os estuques, madeira de cedro entalhada e azulejos zellige. É a única madrasa de Fez aberta a não-muçulmanos o dia inteiro. Entrada: 20 MAD.
10:30 - Desça pela Talaa Kebira (rua principal da medina) em direção ao Dar al-Magana (Relógio de Água). Esse relógio hidráulico do século XIV é fascinante - ninguém sabe exatamente como funcionava. Não dá pra entrar, mas a fachada vale a parada.
11:00 - Continue até o Fondouk Nejjarine e o Museu Nejjarine de Artes em Madeira. O fondouk (antiga hospedaria de caravanas) é lindo por si só. O museu tem peças incríveis de artesanato em cedro. Entrada: 20 MAD. O terraço do museu tem uma vista panorâmica excelente - tome um chá de menta lá em cima.
12:30 - Almoço em um dos restaurantes da medina. Experimente uma harira (sopa marroquina) com pão fresco. Um almoço bom sai por 50-80 MAD.
14:00 - Caminhe até a Madrasa Al-Attarine, construída em 1325. Fica ao lado da Mesquita e Universidade Al-Qarawiyyin. A madrasa é menor que a Bou Inania, mas o detalhamento dos azulejos é quase hipnótico. Entrada: 20 MAD. A mesquita em si não é acessível a não-muçulmanos, mas você pode espiar pelas portas.
16:00 - Vá até a Praça Seffarine (Praça dos Caldeireiros). É a praça mais antiga de Fez e um dos poucos espaços abertos na medina. Os artesãos ainda martelam panelas e caldeirões de cobre como faziam há séculos. O som é a trilha sonora perfeita.
17:30 - Termine o dia no Museu Dar Batha. O palácio em si, com seus jardins andaluzes, já vale a visita. A coleção de cerâmica azul de Fez é a maior do país. Entrada: 20 MAD. Fecha às 17h no inverno, 18h no verão - confirme antes.
Dia 2: Curtumes, vistas e o bairro judaico
09:00 - Direto para o Curtume Chouara, o mais fotografado de Fez. Chegue cedo, antes dos grupos de turistas. Você vai ser abordado por guias informais que te levam aos terraços das lojas ao redor - é esperado dar uma gorjeta de 10-20 MAD. O cheiro é forte (te darão um ramo de hortelã para o nariz). As melhores fotos são de manhã, quando o sol ilumina os tanques coloridos. Se quiser comprar couro, negocie com calma - comece oferecendo 30-40% do preço pedido.
11:00 - Suba até os Túmulos Merinidas nas colinas ao norte. As ruínas em si não são espetaculares, mas a vista panorâmica da medina é absolutamente imperdível. Leve água e protetor solar - não há sombra. O caminho a pé leva uns 20 minutos subindo, ou você pode pegar um táxi por 15 MAD.
12:00 - Ao lado, visite o Borj Nord (Museu de Armas). O forte do século XVI tem uma coleção de armas históricas e, mais importante, outra vista incrível. Entrada: 20 MAD.
13:30 - Desça para almoçar na Ville Nouvelle ou na medina. Se estiver na Ville Nouvelle, experimente um dos cafés da Avenue Hassan II.
15:00 - Explore Fes el-Jdid. Comece pelo Palácio Real de Fes (Dar el-Makhzen). Não dá pra entrar, mas os portões dourados monumentais são um espetáculo. Depois caminhe pelo antigo mellah (bairro judaico) e visite a Sinagoga Ibn Danan, restaurada e aberta à visitação. Entrada: 10 MAD.
16:30 - Termine a tarde nos Jardins Jnan Sbil, o oásis verde de Fez. Perfeito para descansar os pés depois de dois dias intensos de caminhada.
18:00 - Visite o Mausoléu de Moulay Idriss II, o santo padroeiro de Fez. Não-muçulmanos não podem entrar, mas podem observar da porta. A área ao redor é sagrada e tem uma energia especial, especialmente ao entardecer.
Dia 3: Compras, artesanato e hammam
09:00 - Dia de compras nos souks. Passe pela Bab Semmarine e explore os mercados de especiarias, tecidos, cerâmica e metalurgia. Fez é famosa pela cerâmica azul e branca, pelos trabalhos em couro e pelo bordado fassi. Dica de ouro: se você realmente quer comprar, vá sem guia - o guia ganha comissão das lojas, o que encarece tudo.
12:00 - Almoço em um riad-restaurante. Muitos riads servem almoços com menu fixo por 120-180 MAD, incluindo entrada, tagine, sobremesa e chá. Vale muito a pena pela experiência.
14:30 - Hammam tradicional. O Hammam Sidi Azzouz (na medina) é autêntico e frequentado por locais. Leve sua própria toalha, sabonete preto (sabun beldi) e luva de esfoliação (kessa) - você compra tudo no souk por 30-40 MAD. A entrada no hammam público custa 15-20 MAD. Se preferir mais conforto, os hammams dos riads de luxo custam 200-400 MAD com tratamento completo.
17:00 - Assista ao pôr do sol de algum terraço de riad ou volte aos Túmulos Merinidas para a luz dourada da golden hour sobre a medina.
Dias 4-5: Excursões a partir de Fez
Meknes e Volubilis (dia inteiro): A 60 km de Fez, Meknes é outra cidade imperial com muito menos turistas. Volubilis são as ruínas romanas mais bem preservadas do norte da África. Excursões guiadas saem por 300-500 MAD por pessoa, ou você pode ir de grand táxi por 25-30 MAD/pessoa até Meknes e de lá pegar outro até Volubilis.
Ifrane e Azrou (dia inteiro): Ifrane é a 'Suíça marroquina' - cidade limpa, com chalés e até uma escultura de leão famosa. Azrou tem a floresta de cedros onde vivem macacos-de-barbaria selvagens. Excursão: 400-600 MAD por pessoa, ou grand táxi por 35-40 MAD/pessoa até Ifrane.
Dias 6-7: Aprofundando
Com uma semana, você pode revisitar seus lugares favoritos sem pressa, fazer uma aula de culinária marroquina (200-400 MAD, dura 3-4 horas e você come o que cozinhou), explorar os bairros residenciais da medina onde quase nenhum turista vai, ou simplesmente sentar em um café e observar a vida passar. Fez recompensa quem vai devagar.
Onde comer em Fez: restaurantes e cafés
A gastronomia de Fez é considerada a mais refinada do Marrocos. A cidade inventou praticamente metade dos pratos que você associa à culinária marroquina. Aqui vão minhas recomendações honestas por faixa de preço:
Orçamento apertado (30-60 MAD por refeição / R$ 15-30 / 3-6 USD)
Barracas da medina: Ao longo da Talaa Kebira e Talaa Sghira, você encontra barracas de comida onde um sanduíche de kefta (espetinhos de carne moída) com pão, batatas e salada custa 20-30 MAD. Sopa harira com pão: 10-15 MAD. Procure os lugares onde os locais comem - fila é sinal de qualidade.
Café Clock (perto de Bab Bou Jeloud): Um dos cafés mais conhecidos de Fez, famoso pelo 'camel burger' (hambúrguer de camelo). Ambiente descolado, Wi-Fi bom, terraços com vista. Pratos entre 50-90 MAD. Tem apresentações de música gnawa e contadores de histórias. É um ótimo ponto de encontro para viajantes.
Thami's (na medina): Restaurante familiar minúsculo, sem placa na porta, mas que serve um dos melhores tagines de Fez. Pergunte aos locais - todo mundo conhece. Menu do dia por 40-50 MAD.
Preço médio (80-180 MAD por refeição / R$ 40-90 / 8-18 USD)
Ruined Garden: Restaurante em um riad parcialmente em ruínas, transformado em jardim. A comida mistura tradicional marroquina com toques modernos. Saladas incríveis, tagines generosos. Reserva recomendada. Pratos: 70-120 MAD.
Dar Roumana: Cozinha marroquina refinada em um riad lindo. Menu fixo de 3 pratos por 300-400 MAD - caro para Fez, mas a qualidade é excepcional. Perfeito para uma noite especial.
Restaurante do Palais Amani: Cozinha marroquina contemporânea em um jardim de hotel boutique. Almoço é mais acessível que jantar. Pratos: 90-150 MAD.
Para ocasiões especiais (200+ MAD / R$ 100+ / 20+ USD)
Riad Fes: Restaurante de hotel cinco estrelas com vista panorâmica. Menu degustação por 500-700 MAD. A experiência completa inclui música ao vivo e decoração deslumbrante. Reserve com antecedência.
Nur: Um dos melhores restaurantes do Marrocos. Fusão marroquina-internacional com ingredientes locais. Menu degustação de 5 pratos por 600-800 MAD. Ambiente íntimo, máximo 30 pessoas. Reserva obrigatória com dias de antecedência.
Cafés para pausas
Os cafés da Place R'cif são ótimos para um chá de menta (5-10 MAD) observando o movimento. Na Ville Nouvelle, o Café Merinides na Avenue Hassan II é ponto de encontro clássico. Para o melhor suco de laranja fresco de Fez (4-5 MAD o copo), procure as barracas perto do Bab Bou Jeloud - são dezenas lado a lado.
O que experimentar: a comida de Fez
Fez é o berço da alta gastronomia marroquina. A cozinha fassi (de Fez) é mais complexa e sofisticada que a do resto do país. Aqui estão os pratos que você não pode perder:
1. Pastilla (ou Bastilla): A obra-prima de Fez. Um folhado crocante recheado tradicionalmente com pombo (ou frango), amêndoas, ovos e canela, polvilhado com açúcar de confeiteiro. É doce e salgado ao mesmo tempo, e é absolutamente viciante. A versão tradicional com pombo custa mais (80-120 MAD em restaurantes), a de frango é mais acessível (50-70 MAD).
2. Tagine de cordeiro com ameixas e amêndoas: O tagine mais icônico de Fez. A carne cozinha por horas até desmanchar, as ameixas adicionam doce natural e as amêndoas tostadas dão crocância. Peça em qualquer restaurante da medina - 50-90 MAD.
3. Rfissa: Prato de celebração (servido após o nascimento de bebês), feito com lentilhas, frango desfiado e tiras finas de msemen (panqueca marroquina), temperado com fenugreco. Reconfortante e único. Difícil de encontrar em restaurantes turísticos - peça no seu riad.
4. Harira: A sopa nacional do Marrocos, mas em Fez ela é especialmente boa. Tomate, lentilhas, grão-de-bico, ervas e um toque de limão. Durante o Ramadã é servida em cada esquina ao pôr do sol. Fora do Ramadã, encontra-se em barracas de sopa por 10-15 MAD.
5. Mechoui: Cordeiro inteiro assado lentamente em forno de barro. A carne fica tão macia que se desfaz. Servido com cominho e sal. Você compra por peso nos açougues da medina - 100-150 MAD por uma porção generosa.
6. Tanjia: Embora seja originalmente de Marrakech, a versão de Fez é diferente. Carne de vaca ou cordeiro cozida em um pote de cerâmica por 6-8 horas em brasas. Peça com um dia de antecedência no seu riad.
7. Briouat: Triângulos fritos de massa filo recheados com carne, queijo ou amêndoas com mel. O aperitivo perfeito com chá de menta. Encontra-se em padarias e barracas de rua por 3-5 MAD a unidade.
8. Sellou (Zamita): Doce tradicional feito de farinha de amêndoa torrada, gergelim, canela e mel. Tem textura de farofa doce. Você encontra em lojas de doces na medina por 60-100 MAD o quilo. Viciante - compre para levar.
9. Chá de menta marroquino: Não é exatamente comida, mas é ritual. Chá verde gunpowder com hortelã fresca e muito açúcar, servido de altura para criar espuma. Recusar chá é praticamente uma ofensa social. Você vai tomar pelo menos 10 copos por dia - acostume-se e aproveite. Em qualquer café: 5-10 MAD.
Segredos de Fez: dicas dos locais
Depois de muito tempo explorando Fez e conversando com moradores, juntei dicas que você não encontra em guia nenhum:
1. Não contrate guia no portão: Os guias 'oficiais' que ficam no Bab Bou Jeloud cobram 300-400 MAD por meio dia e frequentemente te levam a lojas onde ganham comissão. Se quiser guia, peça recomendação no seu riad ou reserve online com antecedência - custa 150-250 MAD e a qualidade é muito melhor.
2. Aprenda 'la, shukran' (não, obrigado): Essa frase vai ser sua melhor amiga na medina. Diga com firmeza e sorriso. Funciona melhor que ignorar ou dizer 'no'.
3. Se perdeu? Desça: A medina é construída em uma encosta. Se você descer, eventualmente chega ao rio (centro da medina). Se subir, chega às muralhas. Nenhum dos dois é ruim, mas saber isso tira a ansiedade de estar perdido.
4. Negocie, mas com respeito: A negociação é cultural, não é briga. Comece oferecendo 30-40% do preço pedido. Se o vendedor não aceitar, agradeça e comece a sair - se te chamar de volta, você está perto do preço justo. Nunca comece a negociar se não pretende comprar.
5. Cuidado com o 'guia espontâneo': Crianças e jovens vão se oferecer para te mostrar o caminho. Alguns são genuínos, outros vão te levar em círculos e pedir dinheiro. Se aceitar ajuda, combine o preço antes (10-20 MAD é justo para te guiar até um lugar específico).
6. Visite os souks temáticos: Cada área da medina tem sua especialidade - há o souk dos tintureiros (com skeins de lã colorida penduradas), dos ferreiros na Praça Seffarine, dos carpinteiros no Fondouk Nejjarine. Pergunte no riad como chegar a cada um.
7. O melhor horário para o curtume: Vá ao Curtume Chouara entre 9h e 11h quando os trabalhadores estão em plena atividade e a luz é perfeita para fotos. Depois das 14h os tanques estão mais vazios e as cores menos vibrantes.
8. Carregue moedas e notas pequenas: Muitos comerciantes 'não têm troco' para notas de 200 MAD. Tenha sempre moedas de 1, 2 e 5 MAD para gorjetas e compras rápidas. Notas de 20 e 50 MAD são ideais para o dia a dia.
9. Hammam na segunda ou quinta: São os dias tradicionais de hammam para homens e mulheres (separadamente). Os hammams ficam mais cheios, mas a experiência é mais autêntica. Pergunte no riad qual é o melhor hammam próximo.
10. Compre especiarias no Souk el-Attarine: Fica perto da Madrasa Al-Attarine. Os preços são melhores aqui do que nas lojas perto do Bab Bou Jeloud. Ras el-hanout (mistura de especiarias marroquina) é o melhor souvenir para quem cozinha - 30-50 MAD por 100g de boa qualidade.
11. Sexta-feira é dia de descanso: Muitas lojas e museus fecham na sexta-feira (dia de oração muçulmana), especialmente de manhã. Planeje atividades ao ar livre para sextas: Túmulos Merinidas, Jardins Jnan Sbil, excursões fora da cidade.
Transporte e comunicação
Como chegar a Fez
De avião: O Aeroporto Fes-Saiss (FEZ) fica a 15 km do centro. De Lisboa, há voos diretos da TAP e Ryanair (1h40, a partir de 30 EUR ida). De São Paulo, o caminho mais eficiente é via Lisboa ou Casablanca. Passagens GRU-FEZ com uma conexão custam R$ 3.500-5.500, dependendo da temporada e antecedência. Do aeroporto ao centro: táxi oficial por 120-150 MAD (negocie antes de entrar), ou ônibus 16 por 5 MAD (mas não opera de noite).
De trem: A estação Fes-Ville é bem conectada. ONCF opera trens confortáveis de Casablanca (3h30, 125-200 MAD), Marrakech (7h, 195-295 MAD), Meknes (40 min, 25-35 MAD) e Tanger (4h, 135-200 MAD). Compre bilhetes online em oncf.ma com antecedência para melhores preços. A primeira classe vale a diferença (30-50 MAD a mais).
De ônibus: CTM e Supratours são as melhores empresas. Ônibus de Chefchaouen (4h, 75 MAD), Casablanca (5h, 90-110 MAD) e outras cidades. A estação rodoviária fica na Ville Nouvelle.
Circulando em Fez
Na medina: a pé. Não há alternativa. As ruelas são estreitas demais para qualquer veículo (exceto burros e motocicletas, que aliás são um perigo constante - encoste-se na parede quando ouvir 'balek!'). Use sapatos confortáveis e com boa aderência - o chão pode ser escorregadio.
Petit táxi (vermelho): Para distâncias dentro da cidade (medina à Ville Nouvelle, etc.). Máximo 3 passageiros. Insista que o motorista ligue o taxímetro (compteur). Corrida típica: 10-20 MAD. Se o motorista se recusar a ligar o taxímetro, saia e pegue outro. À noite, o preço sobe 50%.
Grand táxi (branco/bege): Para viagens intermunicipais (Fez-Meknes, Fez-Ifrane). São compartilhados (6 passageiros por carro, apertado). Você pode pagar o lugar todo para ter mais espaço. Saem quando estão cheios, sem horário fixo.
Internet e comunicação
Chip de celular: Compre um chip Maroc Telecom, Orange ou Inwi no aeroporto ou em qualquer loja da cidade. Um pacote com 10GB de dados custa 50-70 MAD (válido por 30 dias). Leve seu passaporte - é necessário para registro. Maroc Telecom tem a melhor cobertura, Orange tem os melhores preços de dados.
Wi-Fi: A maioria dos riads e cafés tem Wi-Fi, mas não espere velocidade brasileira. Na medina, o sinal pode ser instável. Se você depende de internet para trabalho, fique na Ville Nouvelle onde a infraestrutura é melhor.
Apps úteis: Maps.me ou Google Maps offline (baixe o mapa de Fez antes de chegar - na medina você vai precisar), Google Translate (baixe o pacote de árabe offline), inDrive ou Careem para táxis com preço fixo (alternativa ao taxímetro).
Idioma: Árabe marroquino (darija) é a língua do dia a dia. Francês é amplamente falado. Inglês funciona em zonas turísticas. Espanhol também é útil (influência histórica do norte do Marrocos). Português não é comum, mas francófonos podem entender algo se você falar devagar.
Para quem é Fez: conclusão
Fez não é para todo mundo, e tudo bem. Se você precisa de calçadas perfeitas, placas de sinalização e menus em português, talvez Fez não seja seu destino. Mas se você é do tipo que se emociona ao virar uma esquina e dar de cara com um pátio de mosaicos do século XIV, que gosta de provar comida que nunca ouviu falar, que encontra beleza no caos organizado de uma cidade que funciona há mais de mil anos - Fez vai mudar a forma como você vê o mundo.
É a cidade mais genuína que já visitei no norte da África. Não tem Starbucks, não tem shopping centers, não tem aquela sensação de 'montaram isso pra turista ver'. Cada riad é uma casa de família, cada artesão faz o que seu avô fazia, cada prato tem história. Para brasileiros e portugueses, há algo estranhamente familiar aqui - talvez os azulejos, talvez a hospitalidade, talvez o caos criativo que nos conhecemos tão bem.
Venha com mente aberta, sapato confortável e estômago vazio. Fez cuida do resto.